O apetite não desliga por igual
Comer virou tarefa. O cardápio de sempre não desce, o prato fica pela metade, e ainda sobra a sensação de estar fazendo alguma coisa errada.
O que costuma sair do prato primeiro é a proteína. Carne, peixe, ovo e leguminosa são alimentos densos: levam mais tempo para mastigar e para sair do estômago. E as canetas semanais (semaglutida, tirzepatida), a classe que se chama GLP-1, retardam justamente essa saída. É o padrão que a revisão da Nutrients descreve: quem faz o tratamento fica abaixo da proteína que precisa, e concentra à noite o pouco que come.
O restante do guia mostra como contornar isso.
Se hoje foi um dia em que nada desceu, pule para o que fazer nesses dias →
A velocidade também importa
Junto com a gordura sai massa magra (músculo, água e osso). Na mediana, 28,3% de tudo o que se perde, segundo uma revisão de 2026 no Annals of Internal Medicine.
A manchete que saiu daí engana. Em dois terços dos grupos medicados a perda de músculo passou do esperado, contra quatro de dez entre os que emagreceram sem remédio. Só que estes perderam 2,5% do peso, e os outros, muito mais. Comparar quem perdeu quase nada com quem perdeu muito mede o efeito de emagrecer, não o do remédio. E os próprios autores registram que a perda passou do esperado também sem remédio, quando o peso caiu.
A velocidade entra nessa conta. Perder peso rápido, com pouca proteína e pouco treino de força, aumenta a perda de músculo, segundo a revisão da Nutrients. E a caneta é justamente o que faz o peso sair rápido. Por isso proteína e treino de força importam tanto neste tratamento. Os dois ajudam a segurar o músculo enquanto a gordura sai.
Quanto
De 1,0 a 1,5 grama de proteína por quilo, por dia. É esse o alvo enquanto o peso está saindo. A calculadora logo abaixo faz essa conta com o seu peso, a sua altura, o seu sexo e a sua idade.
Quem faz treino de força precisa de um pouco mais, de 1,2 a 1,6 grama por quilo. E depois dos 60 anos o corpo aproveita menos a proteína que recebe, então a necessidade também sobe.
Muita gente que faz essa conta descobre que já está dentro da faixa. Se for o seu caso, a tarefa passa a ser sustentar isso nos dias ruins.
Antes da conta, um recado curto e sério. Com função renal ou hepática reduzida, na gestação, na amamentação ou com transtorno alimentar em atividade, este número não é seu. Nessas situações, quem calcula é quem te acompanha.
Faça a sua:
A faixa aplicada ao seu peso
Preencha e veja quanta proteína o seu dia pede.
Se você prefere previsibilidade, veja como a sua faixa se divide ao longo do dia.
A faixa por peso, sem calculadora
De 1,0 a 1,5 grama por quilo, arredondado de 5 em 5 gramas, sobre o peso de hoje. A calculadora acima afina esta conta pela sua altura e pelo seu sexo.
- 55 kg 55 a 85 g
- 60 kg 60 a 90 g
- 65 kg 65 a 100 g
- 70 kg 70 a 105 g
- 75 kg 75 a 115 g
- 80 kg 80 a 120 g
- 85 kg 85 a 130 g
- 90 kg 90 a 135 g
- 95 kg 95 a 145 g
- 100 kg 100 a 150 g
- 105 kg 105 a 160 g
- 110 kg 110 a 165 g
- 115 kg 115 a 175 g
- 120 kg 120 a 180 g
- 125 kg 125 a 190 g
- 130 kg 130 a 195 g
Esta é uma estimativa e não exclui a avaliação de um profissional.
Leve o número para quem acompanha o seu tratamento.
Arroz com feijão sozinho não chega perto
Um prato de arroz com feijão (quatro colheres de arroz e uma concha) tem cerca de 9 gramas de proteína. A faixa de um dia inteiro, para a maioria das pessoas, fica entre 65 e 120 gramas. A calculadora acima te dá a sua.
| Alimento, já preparado | Proteína na porção | Proteína em 100 g |
|---|---|---|
| Carne, peixe e ovo | ||
| Patinho bovino, sem gordura, grelhado | 43,1 g um bife médio · 120 g | 35,9 g |
| Lombo suíno, assado | 42,8 g duas fatias · 120 g | 35,7 g |
| Peito de frango, sem pele, grelhado | 38,4 g um filé · 120 g | 32,0 g |
| Sardinha, assada | 32,2 g um prato pequeno · 100 g | 32,2 g |
| Merluza, filé, assado | 31,9 g um filé · 120 g | 26,6 g |
| Atum, conserva em óleo | 26,2 g uma lata escorrida · 100 g | 26,2 g |
| Ovo de galinha, inteiro, cozido | 6,7 g uma unidade · 50 g | 13,3 g |
| Queijo e iogurte | ||
| Queijo minas frescal | 8,7 g uma fatia grossa · 50 g | 17,4 g |
| Iogurte natural | 7,0 g um pote · 170 g | 4,1 g |
| Leguminosa, oleaginosa e cereal | ||
| Lentilha, cozida | 8,8 g uma concha · 140 g | 6,3 g |
| Feijão carioca, cozido | 6,7 g uma concha · 140 g | 4,8 g |
| Tofu (queijo de soja) | 6,6 g uma fatia grossa · 100 g | 6,6 g |
| Castanha-de-caju, torrada e salgada | 5,6 g um punhado · 30 g | 18,5 g |
| Arroz, tipo 1, cozido | 2,5 g quatro colheres de sopa · 100 g | 2,5 g |
| Suplemento | ||
| Whey protein em pó (proteína do soro do leite) | 23,4 g uma medida · 30 g | 78,1 g |
Como ler. Os valores por 100 g são da TACO, exceto o do whey, que não está nela e vem da TBCA. As porções são nossas: chamamos de um bife médio 120 gramas, de uma concha 140, de um pote 170. Se o seu for maior, a conta sobe junto. A embalagem traz o peso, então dá para conferir sem balança. Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TACO), 4ª ed. revisada e ampliada. NEPA/UNICAMP, 2011. Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TBCA), versão 7.3. USP/FoRC, 2025. São valores médios: tabelas de composição divergem entre si e o preparo muda o resultado, então eles servem para ordem de grandeza. O do whey vem de rótulo e muda bastante de um produto para outro, então vale conferir a embalagem do seu. O atum aparece em conserva de óleo porque é a única versão publicada na tabela. Grão-de-bico cozido não está publicado nela e ficou de fora em vez de virar estimativa.
Carne, peixe e frango têm por volta de 30 gramas a cada 100 do alimento pronto. Feijão, lentilha e iogurte, de 4 a 6. Isso não tira o valor do feijão. Ele é quase todo água e traz fibra, que ajuda no intestino preso comum neste tratamento. Só muda a conta: o grosso da proteína do dia vem do primeiro grupo, e é dele que você precisa se lembrar quando o prato encolhe.
Um bife no almoço e um filé de frango no jantar já são 81 gramas. Para muita gente, isso é o dia quase todo.
E isto não é ideia nossa: em 2025, cinco sociedades médicas brasileiras publicaram juntas uma diretriz que recomenda acompanhar de perto o consumo de proteína durante este tratamento.
Isso é mais fácil do que parece
O suplemento em pó ajuda. Misturado em água ou leite, ele vira uma bebida. E bebida não precisa ser mastigada e sai mais rápido do estômago, que é onde o problema está nesses dias. Conforme o produto, um copo tem boa parte da proteína de um filé, sem o trabalho de mastigar. Quando a comida não desce, ele é o caminho mais curto para o seu número.
A comida ainda ganha quando dá para comer: além da proteína, ela traz fibra, vitamina e mineral, que o pó não tem. E é a fibra que ajuda no intestino preso. Então a ordem é essa: comida quando dá, suplemento quando não dá. Os dois contam igual no total do dia.
E não existe cota por refeição. Se o almoço não desceu, o jantar cobre. O que vale é o total do dia, e você tem o dia inteiro para chegar lá.
O que não fazer
Aproveitar a falta de fome para comer o mínimo possível. É o erro mais comum e o que mais prejudica o músculo. O apetite desligado parece uma vantagem: o peso desce sem esforço, e comer virou obrigação. Só que é aí que o corpo vai buscar no músculo o que não chega pelo prato.
Lembra do começo: perder peso rápido aumenta a perda de músculo. Comer menos ainda acelera essa mesma conta. Você perde mais rápido, e perde mais do que gostaria junto. Pular a refeição só porque não deu vontade vai na contramão de todo o resto deste guia.
Se não deu para comer o prato, coma metade. Se não deu para comer metade, beba o suplemento. O ponto é não deixar a refeição passar em branco.
Nos dias em que nada desce
Nesses dias, vale manter a meta e mudar a forma de comer. É o que a revisão descreve, e cabe em seis linhas.
O que fazer
- Beba fora das refeições. Corte o líquido cerca de uma hora antes e volte cerca de uma hora depois. Copo cheio no meio da comida ocupa um espaço que já está curto.
- Coma porções menores, mais vezes ao dia. Prato cheio em fase de saciedade precoce termina em desconforto e em comida deixada.
- Mastigue devagar e pare quando vier a saciedade. É a instrução que mais se repete na literatura sobre tolerância.
- Prefira as fontes magras: carnes magras, peixe, iogurte sem açúcar, leguminosas. Processados, o mínimo.
- Mude a textura antes de mudar a meta. Macio, bem cozido, pouco condimentado. E, quando nem isso desce, líquido: sopa, caldo batido, vitamina, purê. A proteína continua lá. O que muda é o trabalho que ela dá para descer.
- Evite canudo. Com ele, você engole mais ar, e o estufamento piora.
Intestino preso
Suba a água para pelo menos dois litros por dia e acompanhe de uma fibra que você tolere bem. É a única queixa para a qual a revisão indica conduta específica.
No começo e nos aumentos de dose
É nessa hora que o desconforto costuma ser maior, e isso é esperado: a intolerância digestiva é descrita como mais forte no início e a cada aumento, e como algo que cede com o tempo. Saber disso ajuda a encarar um dia ruim como parte de uma fase que tende a passar.
Quando isso deixa de ser questão de textura
Se o desconforto está piorando em vez de acomodar, é hora de falar com quem te acompanha.
Quando o número não é seu
As orientações acima são gerais e não valem para todo mundo.
Proteína mais alta não é neutra para quem tem função renal ou hepática reduzida. Idosos e pessoas com risco de sarcopenia (a perda de músculo e de força que vem com a idade) têm necessidades diferentes, e nelas o que importa acompanhar é a perda de função, não só o peso. Gestação, amamentação e transtorno alimentar em atividade são situações em que um número de ingestão como o desta página pode ser prejudicial.
A faixa deste guia foi levantada em pessoas com obesidade em tratamento com essas medicações. Fora disso, ela não foi medida.
Se alguma dessas for a sua situação, o número certo sai de quem avalia você: médico e nutricionista, cada um na sua área.
Resumo
- A faixa é de 1,0 a 1,5 grama de proteína por quilo do peso de hoje, e sobe para 1,2 a 1,6 grama por quilo em quem faz treino de força.
- Para a maioria das pessoas isso fica entre 65 e 120 gramas por dia.
- Um prato de arroz com feijão tem cerca de 9 gramas de proteína, longe da faixa de um dia inteiro.
- Depois dos 60 anos o corpo aproveita menos a proteína que chega.
Você não precisa acertar todos os dias
Um dia isolado muda pouco. O que conta é o que se repete ao longo das semanas.
Comece pelo que já está no seu prato: se o almoço tem uma carne e o jantar tem outra, a maior parte do caminho já está feita. O resto é ir completando nos dias de pouca fome.
A proteína de cada dia e o treino de força são o que ajuda a segurar o músculo enquanto o peso sai.
Perguntas frequentes
Qual é a faixa que o guia usa?
De 1,0 a 1,5 grama de proteína por quilo do peso de hoje, arredondado de 5 em 5 gramas. Quem faz treino de força precisa de um pouco mais, de 1,2 a 1,6 grama por quilo.
Quanto isso dá por dia?
Para a maioria das pessoas, entre 65 e 120 gramas. A calculadora afina essa conta pela sua altura, pelo seu sexo e pela sua idade.
Arroz com feijão resolve?
Um prato com quatro colheres de arroz e uma concha de feijão tem cerca de 9 gramas de proteína. É pouco diante de uma faixa que começa em 65 gramas no dia.
A idade muda a conta?
Muda. Depois dos 60 anos o corpo aproveita menos a proteína que chega, então a mesma quantidade rende menos.
A calculadora substitui um profissional?
Não. É uma estimativa e não exclui a avaliação de um profissional.